Marta dos Santos Marques N.º 29699 Traços psicopáticos, consumo de substâncias psicoativas e envolvimento em comportamentos criminais por parte de mulheres: Uma revisão sistemática Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica Forense – Intervenção com Agressores e Vítimas Trabalho realizado sob a orientação da Professora Doutora Olga Souza Cruz e coorientação da Mestre Diana Moreira, Instituto Universitário da Maia Setembro, 2020 Agradecimentos A concretização da dissertação de Mestrado marca uma etapa concluída, uma etapa com os seus obstáculos e com as suas conquistas. Não seria possível chegar a este momento sem o apoio incondicional de várias pessoas especiais. Começar por agradecer ao Instituto Universitário da Maia, pela instituição que é, pela valorização e priorização que dá ao ensino, um ensino de qualidade com os/as professores/as mais qualificados/as. Devo destacar em particular a Professora Doutora Olga Cruz, que me apoiou durante vários momentos, durante vários altos e baixos e que mesmo assim nunca desistiu de mim. Que me ajudou a construir a confiança que não sabia ter, que me mostrou que com esforço e dedicação, de facto, tudo se conquista. Que exacerbou em mim a capacidade de independência. Um obrigada especial à Professora Diana Moreira de doce personalidade, que marca os/as alunos/as pelo seu carinho incondicional, pelo apoio que presta com o simples intuito de ajudar. Desejo as maiores felicidades e grandes conquistas pessoais e profissionais a estas duas professoras, que marcam pela diferença com que se entregam. Às minhas companheiras e amigas de percurso académico, Cristiana e Raquel, fica um obrigada repleto de carinho por saber que estiveram, estão e estarão presentes em tudo. Por me deixarem apenas boas lembranças e por deixarem uma vontade enorme de mais conquistas juntas. À minha família, um muito obrigada por acreditarem em mim, por me permitirem sonhar e por me darem asas para voar. Por me terem dado o suporte necessário para alcançar todas as metas e me superar dia após dia. Ao meu namorado pelo amor, compreensão, paciência e dedicação um obrigada muito especial, a pessoa especial que é em muito contribuiu para a pessoa que sou hoje e para os objetivos que delineei. Agradeço a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para este momento, um obrigada não é suficiente. Mas fica o meu eterno carinho! Resumo Este estudo tem como objetivo contribuir para a compreensão da relação entre os traços psicopáticos, os consumos de substâncias psicoativas e a criminalidade feminina, através da pesquisa em múltiplas bases de dados e de rigorosos critérios de inclusão e exclusão. Ainda que sejam numerosos os estudos que abordam as temáticas, as suas especificidades no sexo feminino apresentam ainda pouca exploração científica. É certo que se compreende uma associação estreita entre a criminalidade e os consumos no sexo feminino, sendo estes comportamentos muito particularizados e distintos do sexo masculino. Os traços de psicopatia no sexo feminino e a sua relação com as variáveis em estudo demonstram que existe ainda frequentemente uma errada leitura da sintomatologia característica da psicopatia, dando origem a diagnósticos equivocados que poderão estar na origem da baixa percentagem de psicopatia feminina. Partindo de 132 estudos e excluindo os duplicados, permaneceram 17 estudos dos quais após leitura integral se verificou existir apenas sete elegíveis para inclusão. Adicionalmente foram integrados dois estudos de modo manual, tendo um total final de nove estudos, publicados entre 1981 e 2020. De modo global os estudos sugerem uma associação inegável entre os consumos de substâncias psicoativas e a criminalidade perpetrada pelo sexo feminino, sendo explícito que na sua maioria a conduta ilícita é motivada por fatores relacionados direta e indiretamente com as substâncias. Adicionalmente identificam-se frequentemente traços psicopáticos em ofensoras que cometeram crimes violentos, sendo considerado que a sua manifestação acresce a probabilidade de envolvimento no consumo de substâncias psicoativas lícitas ou ilícitas. Palavras-chave: psicopatia, mulheres, substâncias psicoativas, criminalidade feminina, revisão sistemática Abstract This study aims to contribute to the understanding of the relationship between psychopathic traits, psychoactive substance consumption and female crime, through research in multiple databases and rigorous inclusion and exclusion criteria. Although there are many studies addressing the themes, their specificities in females still have little scientific exploration. It is certain that a close association between crime and consumption in females is understood, and these behaviors are very particularized and distinct from the male sex. The traces of psychopathy in females and their relationship with the variables under study show that there is still often a misreading of the symptomatology characteristic of psychopathy, giving rise to misdiagnoses that may be at the origin of the low percentage of female psychopathy. Starting from 132 studies and excluding duplicates, 17 studies remained, of which after full reading there were only seven illegible for inclusion. In addition, two studies were integrated manually, with a final total of nine studies, published between 1981 and 2020. Overall, studies suggest an undeniable association between the consumption of psychoactive substances and the crime perpetrated by the female sex, being explicit that most of the illegal conduct is motivated by factors directly and indirectly related to the substances. Additionally, psychopathic traits are often identified in offenders who have committed violent crimes, and it is considered that their manifestation increases the probability of involvement in the consumption of licit or illicit psychoactive substances. Keywords: psychopathy, women, female psychopathy, psychoactive substances, female crime, systematic review Índice Agradecimentos ------------------------------------------------------------------------------------ II Resumo ---------------------------------------------------------------------------------------------- IV Abstract ---------------------------------------------------------------------------------------------- V Índice de Figuras ----------------------------------------------------------------------------------- VI Índice de Tabelas ----------------------------------------------------------------------------------- VII Introdução ------------------------------------------------------------------------------------------- 1 Método ----------------------------------------------------------------------------------------------- 8 Resultados ------------------------------------------------------------------------------------------- 15 Criminalidade Feminina e Consumos de SPA ------------------------------------------------- 15 Psicopatia feminina e consumo de SPA -------------------------------------------------------- 18 Discussão ------------------------------------------------------------------------------------------- 21 Conclusão ------------------------------------------------------------------------------------------- 24 Referências ------------------------------------------------------------------------------------------ 27 Índice de Figuras Figura 1. Diagrama da pesquisa bibliográfica ………………………………… 11 Índice de Tabelas Tabela 1. Sumário das características dos resumos ……………………………… 12 Lista de Abreviaturas APSD – Antissocial Process Screening Device ASP – Perturbação Antissocial da Personalidade BPD – Perturbação da Personalidade Borderline SPA – Substâncias psicoativas Introdução Criminalidade Feminina Durante séculos acreditou-se que os ofensores e as ofensoras cometiam crimes baseados nas mesmas motivações e como tal deveriam ser aplicadas medidas exatamente iguais pelo sistema de justiça criminal (Miller, 2009). A verdade é que se compreende, desde há várias décadas, que a criminalidade feminina é um construto complexo e multifacetado (Cunha, 2001; Miller, 2009), podendo ressaltar-se o caráter de invisibilidade do sexo feminino na criminalidade (Machado, 2008). Investigadores/as têm ao longo dos anos efetuado estudos predominantemente sobre o sexo masculino, reservando escasso realce às variáveis que integram os processos da criminalidade feminina, bem como ao processo judicial e à devida intervenção (Duarte & Cerqueira, 2015). A caracterização do sexo feminino é influenciada pelo cariz histórico, cultural e sociopolítico da sociedade, sendo as mulheres percecionadas como seres frágeis e cuidadores e consequentemente remetidas para a prestação de responsabilidades familiares e domésticas (Cunha, 2009), enquanto o sexo masculino é incentivado à externalização de uma masculinidade baseada na violência e risco (Miller, 2009). Tal significa que quando é cometido um crime por uma ofensora este é interpretado como um afastamento das condutas socialmente estabelecidas (Machado, 2008; Miller, 2009), o que explica a severidade das reações criminais e penas atribuídas, pois tradicionalmente os homens são agentes de crime e as mulheres são vítimas do mesmo (Duarte & Cerqueira, 2015). A participação feminina na criminalidade tem aferido significativa expressão, ainda que o sexo masculino continue a predominar, face a uma subrepresentação do sexo feminino na criminalidade (Fraga, 2015). Compreende-se, assim, nas taxas de reclusão uma visão holística e ausente de ideais preconcebidos sobre o sexo masculino; contudo, denota-se uma perspetiva sobre o sexo feminino marcadamente refém das expectativas de género (Cunha, 2006). Destaca-se a homogeneidade do perfil das ofensoras, pois existe uma incidência maioritária nos crimes relacionados direta e indiretamente com as substâncias psicoativas (SPA), sendo estes os que absorvem a maioria da criminalidade feminina, com uma percentagem de 54.3% (Cunha, 2009; Torres et al., 2015). Adicionalmente, os dados revelados pelo último Inquérito Nacional sobre Comportamentos Aditivos em Meio Prisional (INCAMP) indicam que, em 2015 ano da análise, se constata um aumento percentual nos crimes de roubo (16%) e de furto (14.8%), sendo que de algum modo estes crimes se encontram indiretamente ligados às SPA, como meio de sustentar a adição (Torres et al., 2015). O crime de tráfico de SPA destaca-se como o comportamento ilícito mais praticado pelas ofensoras, sendo claro que o mercado circundante das SPA proporcionou uma abertura de oportunidades nas quais o sexo feminino marcou presença (Cunha, 2009; Torres et al., 2015). Ainda que tendencialmente o seu desempenho passe por uma posição marcada pela precariedade e risco, estas conseguiram delinear um nicho no qual as suas características particulares são de especial utilidade (Cunha, 2001; Fraga, 2015). De facto, as características aparentemente de vulnerabilidade e fragilidade atribuídas ao sexo feminino conferem-lhes a permeabilidade necessária ao ramo ilícito; contudo, não é ainda claro se foram as mulheres que marcaram a sua posição como parte integrante do mercado de SPA que até à data lhes tinha sido negada ou, se por outro lado, são as características do crime de tráfico que em particular se revelam vantajosas para o sexo feminino (Cunha, 2001, 2009). É fulcral compreender a especial vulnerabilidade das ofensoras consumidoras, pois tendem a apresentar características sociodemográficas, bem como uma trajetória, evolução dos consumos e repercussões dos comportamentos de risco diferentes dos do sexo masculino (Fraga, 2015). Especificamente, estas revelam uma progressão acentuada nos comportamentos aditivos, manifestando ainda sintomatologia mais severa, nomeadamente: depressão, ansiedade e stresse pós-traumático (EMCDDA, 2020). Tendencialmente enfrentam instabilidade financeira, fraco suporte social, ambiente familiar com problemas relacionados com as SPA, história de abuso sexual, psicológico, físico e/ou financeiro (e.g., iniciado na infância e que frequentemente se manifesta também na idade adulta), maior probabilidade de ter um/a filho/a a seu cargo, situação de desemprego, pertencer a uma minoria e maior probabilidade de coocorrência de psicopatologias (EMCDDA, 2019; Miller, 2009). Atendendo ao contexto e às circunstâncias de muitas mulheres, é possível considerar que as suas escolhas são tomadas dentro de um limitado leque de opções, o que as coloca numa posição de risco (Machado, 2008). De igual modo, a complexidade do seu contexto de vida facilita uma trajetória de envolvimento em atividades criminais (Miller, 2009). Além de mulheres, são também mães, esposas, filhas, imigrantes e estrangeiras, traficantes e ofensoras, sendo que tais facetas são muitas vezes cumulativas, o que as coloca numa posição de especial exposição ao preconceito e à discriminação (Machado, 2008). Psicopatia Feminina e Consumos de SPA Numa perspetiva global a psicopatia é influenciada por fatores biológicos, características da personalidade, historial familiar e fatores ambientais (Soeiro & Gonçalves, 2010). Contudo, a psicopatia enquanto conceito e o seu consequente impacto são áreas que necessitam de futura investigação (Soeiro & Gonçalves, 2010). Este é, portanto, um construto complexo que pode ser agrupado em quatro dimensões: afetiva, interpessoal, estilo de vida e comportamento antissocial (Hare & Neumann, 2008). Primeiramente, a dimensão afetiva salienta o engano/manipulação, a ausência de remorso e/ou culpa, o afeto superficial e a insensibilidade/falta de empatia (Hare & Neumann, 2008). A dimensão interpessoal remete para a loquacidade/encanto superficial, o sentido grandioso de autoestima, a necessidade de estimulação/tendência a experienciar tédio e a mentira patológica (Hare & Neumann, 2008). Quanto ao estilo de vida, identifica-se a tendência a um estilo de vida parasita, a falta de controlo comportamental, o comportamento sexual promíscuo, os comportamentos problemáticos precoces e a incapacidade de estabelecer objetivos realistas a longo prazo (Hare & Neumann, 2008). Por fim, o comportamento antissocial refere-se a impulsividade, a irresponsabilidade, a incapacidade de tomar responsabilidade sobre as suas ações, a relacionamentos de curta duração, a delinquência juvenil, a revogação de liberdade condicional e a versatilidade criminal (Hare & Neumann, 2008). A definição do conceito de psicopatia não atingiu, ainda, o consenso, talvez por a definição se adaptar ao país e às suas legislações, bem como ao seu estado de investigação científica (Lobo, Gonçalves, & Silva, 2011; Moreira, Almeida, Pinto, & Fávero, 2014). Um dos modelos mais aceites para a definição e identificação de psicopatia é o modelo de dois fatores, subdividido em psicopatia primária e secundária (Hare, 1991). A psicopatia primária, relativa ao fator 1 engloba os aspetos afetivos e interpessoais, geralmente característicos de indivíduos com traços de agressividade, hostilidade, extroversão e ausência de nervosismo/ansiedade (Hare, 1991). Quando seguem uma trajetória criminal tendem a ser cautelosos e premeditados nos seus atos, sendo por isso maioritariamente associados a crimes instrumentais (Hare, 1991). Contudo, nem sempre seguem uma trajetória criminal (Hare, 1991). Quanto à psicopatia secundária, relativa ao fator 2, destaca-se a impulsividade e a conduta antissocial, por norma associada a indivíduos com traços de irresponsabilidade, impulsividade, agressividade, ansiedade e baixa autoestima, pelo que consequentemente quando cometem atos ilícitos apresentam-se reativos e sem premeditação/planeamento (Hare, 1991). Fundamentalmente, a psicopatia primária é assente numa estrutura emocional base, ou seja, funciona essencialmente com as emoções primitivas (Konvalina-Simas, 2011), enquanto na psicopatia secundária poderão ser manifestadas emoções secundárias, nomeadamente desejo de aceitação, ansiedade e depressão (Konvalina-Simas, 2011), o que justifica algumas das diferenciações comportamentais existentes. Outro modelo bastante aceite é o modelo triárquico da psicopatia baseado em três facetas: desinibição, ousadia e malvadez (Patrick, Fowles, & Krueger, 2009). A desinibição pode ser caracterizada por impulsividade e afeto negativo, traduzindo-se em manifestações comportamentais de irresponsabilidade, impaciência, comportamento irrefletido, fracasso em planos a longo prazo, baixo limiar à frustração e condutas violentas (Patrick et al., 2009; Venables, Hall, & Patrick, 2013). A externalização aqui associada à afetividade negativa assenta num fenómeno comportamental que inclui comportamento delinquente na infância, comportamentos desviantes na idade adulta, agressividade e tendência a comportamentos aditivos (Patrick et al., 2009; Venables et al., 2013). A ousadia diz respeito a dominância social, resiliência a eventos de elevado stresse, envolvimento em atividades com risco associado, capacidade de manter a calma sob pressão, incapacidade de retirar lições das experiências e baixa propensão ao suicídio (Patrick et al., 2009; Venables et al., 2013). Por fim, a malvadez refere-se à ausência de empatia, incapacidade de ter relações de proximidade com outros indivíduos, arrogância, desafio à autoridade, crueldade com pessoas e/ou animais, agressão premeditada e procura de eventos que promovam a exaltação (Patrick et al., 2009). As características supra elencadas poderão explicar o porquê de os indivíduos com psicopatia possuírem uma particular predisposição para a infração das normas ou, por outro lado, uma capacidade de utilizar as mesmas em benefício próprio (Konvalina-Simas, 2011). Segundo a Society for the Scientific Study of Psychopathy (nd) interessa desmistificar que os indivíduos com psicopatia estão maioritariamente em contexto prisional, mas também em contexto comunitário não tendo cometido quaisquer condutas ilícitas. Ainda que exista um elevado risco de envolvimento em condutas criminais pela conotação de agressividade física que lhe é associada, nem todos os indivíduos com psicopatia necessariamente cometem crimes, alguns poderão inclusivamente nunca adotar condutas de cariz violento (Almeida & Moreira, 2020; Marion & Sellbom, 2011; Soeiro & Gonçalves, 2010). Aliás, podem mesmo inserir-se no mundo dos negócios, política, cargos de liderança e outros papéis sociais relevantes (Almeida & Moreira, 2020; Konvalina-Simas, 2011). Adicionalmente, importa referir que contrariamente às perturbações psicóticas, na psicopatia os indivíduos são racionais e têm plena consciência da realidade (Society for the Scientific Study of Psychopathy, nd). A investigação da psicopatia tem manifestado crescente interesse junto da comunidade científica, ainda que seja notório que na sua maioria os estudos se focam no sexo masculino (Moreira, Pinto, Almeida, Barros, & Barbosa, 2015). Por outro lado, os estudos que integram ambos os géneros não realizam uma análise estatística intergrupal, impedindo que sejam percecionadas as diferenças de género (Moreira et al., 2015). Algumas pressuposições são lançadas sobre as diferenças de género, nomeadamente que os padrões comportamentais poderão modificar tendo em consideração variáveis como a motivação, o ambiente e os processos de socialização (Moreira et al., 2015), tendo uma prevalência, incidência, trajetória e comportamentos distintos no sexo feminino (Almeida & Moreira, 2020), sendo a prevalência e incidência nas mulheres menos de metade da dos homens. Concretamente, foi possível identificar a psicopatia em 17.4% das ofensoras que cometeram crimes violentos, comparativamente com 31% identificado em ofensores do sexo masculino (Carabellese et al., 2020). Essencialmente, em ambos os sexos são identificadas características interpessoais e afetivas, mas as suas manifestações comportamentais são distintas (Moreira et al., 2014). Enfatiza- se, no sexo feminino, a menor agressividade, o risco acrescido de tendência para o suicídio, a maior manipulação de outrem a seu favor, a exibição de um comportamento sexual promíscuo, a sedução e uma tendência a ter consumos de álcool e/ou outras SPA (Almeida & Moreira, 2020; Carabellese et al., 2020; Moreira et al., 2015). As identificações comportamentais supra referidas predispõem ao uso da sedução como meio de manipulação para que outros indivíduos efetuem aquilo que estas desejam (Carabellese et al., 2020). Vários estudos têm constatado uma correlação positiva entre o diagnóstico de psicopatia, de personalidade borderline e de perturbação histriónica da personalidade especificamente no sexo feminino, ou seja, as manifestações comportamentais dos traços psicopáticos nestas parecem ser interpretados comummente como uma outra psicopatologia (Carabellese et al., 2020), o que poderá justificar a discrepância percentual do diagnóstico. É necessária uma avaliação cuidada do construto de psicopatia e a sua associação aos consumos de substâncias psicoativas, pois alguns autores apontam para a possibilidade de a dimensão afetiva e interpessoal ser resultado do consumo de SPA, devido às mudanças neurológicas potenciadas pelas substâncias, ou equacionam ainda a possibilidade de tais manifestações da personalidade se deverem a uma adaptação a um estilo de vida aditivo (Richards, Casey, & Lucente, 2003). Tem-se observado que, após as intervenções de tratamento, é comum a recaída. Acredita- se que tal se deva à ausência de resposta de tratamentos para as especificidades desta população (Swogger et al., 2016). Investigações recentes enfatizam a necessidade de uma adaptação das normas e critérios de avaliação da psicopatia, no que concerne às pontuações e às características idiossincráticas do sexo feminino (Moreira et al., 2015). Esta revisão sistemática pretende compreender o papel dos traços psicopáticos e do consumo de SPA no envolvimento em condutas criminais por mulheres, sendo que a quase inexistência de investigações que abordem estas temáticas concretamente no sexo feminino torna esta revisão de especial pertinência e como uma ponte para a formulação de futuras investigações. Método Estratégia de Pesquisa Os estudos que integram a presente revisão sistemática foram selecionados da EBSCOhost, através de diversas bases de dados como Academic Search Complete, Academic Search Ultimate, CINAHL Plus, Criminal Justice Abstracts, Education Source, ERIC, PsycARTICLES, Psychology and Behavioral Sciences Collection e PsycINFO. A expressão de pesquisa utilizada foi: TX ( callous* OR unemotional OR psychopath* OR sociopath* OR antisocial* ) AND TX ( substance us* OR substance abus* OR substance misus* OR drug us* OR drug abus* OR drug misus* OR drug depend* OR psychoactive substances ) AND TX ( female drug offenders OR female addicted offenders OR female drug user offenders OR female drug misuser offenders OR female dependent offenders OR wom* drug offenders OR wom* addicted offenders OR wom*drug user offenders OR wom* drug misuser offenders OR wom* dependent offenders). Esta pesquisa não foi restringida por quaisquer fatores temporais, geográficos e/ou linguísticos. A seleção dos estudos e extração dos dados foi analisada por dois revisores independentes, de acordo com as sugestões do PRISMA (Moher, Liberati, Tetzlaff, Altman, & PRISMA Group, 2010), de modo a reduzir os estudos perdidos e erros de classificação (Higgins & Green, 2011). Todas as divergências entre os revisores foram discutidas e alcançou-se o consenso. O índice de concordância foi avaliado através do Kappa de Cohen, que revelou um acordo quase perfeito; K = .947, p < .001 (Landis & Koch, 1977). Esta revisão sistemática foi registada na PROSPERO a dia 8 de Maio de 2020, tendo o seguinte ID de registo: 185003. Os critérios de inclusão foram (a) pré-adolescentes, adolescentes e adultos; (b) sexo feminino; (c) consumidoras de qualquer substância psicoativa (lícita e/ou ilícita), atualmente ou no passado; (d) traços de psicopatia ou de perturbação antissocial da personalidade. Os critérios de exclusão foram (a) outra psicopatologia que não psicopatia, perturbação antissocial da personalidade, perturbação desafiante de oposição, perturbação do comportamento, perturbação de hiperatividade com défice de atenção; (b) estudos de caso; (c) revisões sistemáticas com ou sem meta-análise; (d) consumo exclusivo de fármacos psicoativos medicamente prescritos. Partindo da pesquisa realizada em diversas bases de dados e métodos de pesquisa foram selecionados 132 estudos, sendo que 30 estudos eram duplicados, pelo que restaram para análise de abstracts 102 estudos. Foram excluídos 85 dos 102 estudos selecionados, concretamente por: não se relacionar com o tema (n = 40), não abordar a psicopatia (n = 13), não abordar consumos de substâncias psicoativas (n = 11), ser revisão sistemática (n = 10), ter comorbilidade (n = 5), focar somente o sexo masculino (n = 5) e ser meta-análise (n = 1). Dos 17 estudos analisados em texto completo, 10 foram eliminados por não responderem à questão de investigação. Foram incluídos manualmente dois artigos sendo, portanto, nove os estudos nos quais se baseou a presente revisão sistemática (Figura 1). Figura 1. Diagrama da pesquisa bibliográfica Artigos com texto completo avaliados para elegibilidade (n = 7) Artigos excluídos (n = 10) - 10 não respondiam à questão de investigação; Resumos após eliminar os duplicados (n = 102) Estudos incluídos na análise final (n = 9) Resumos incluídos (n = 17) Resumos excluídos (n = 85) -40 não relacionado com o tema; - 13 não abordar psicopatia - 11 não abordar consumo de SPA; - 5 cormobilidade ; - 5 sexo masculino; - 10 revisões sistemáticas; - 1 meta-análise. Resumos identificados através da pesquisa nas bases de dados (n = 132) Resumos incluídos através de outras fontes (n = 2) Tabela 1 Sumário das características dos resumos ESTUDOS OBJETIVOS/HIPÓTESES AMOSTRA CONTEXTO INSTRUMENTOS PRINCIPAIS CONCLUSÕES BALTIERI (2014) Identificação das variáveis associadas ao consumo de SPA por ofensoras que cometeram crimes violentos. 315 ofensoras condenadas por crimes de roubo e homicídio. Todas as ofensoras que integraram o estudo estão na penitenciária de Sant´Ana em São Paulo, Brasil. Autorrelato; AUDIST; DAST; BIS-11; SAST; BDI. A criminalidade feminina está fortemente associada aos consumos de SPA, sobretudo o crime aquisitivo. é comum a identificação de vidas marcadas por vulnerabilidade, sendo o consumo uma forma de coping encontrada pelas mesmas para minimizar o stresse ou bloquear memórias dolorosas. BARBOSA & REIS (2018) Compreensão das diferenças entre jovens do sexo feminino e masculino quanto ao comportamento delinquente e às características de personalidade do tipo psicopático. 30 participantes do sexo feminino e 30 do sexo masculino. Os/as participantes encontravam-se com medidas tutelares em cinco instituições da Região Norte de Portugal. Questionário; Antisocial Process Screening Device (APSD); Escala de Disposição Delinquente (EDD). Escala Geral de Delinquência (EGD). Relativamente à personalidade antissocial e predisposição para a delinquência, os sexos feminino e masculino não evidenciaram diferenças significativas. Contudo, constatam-se diferenças relativamente à frequência e à diversidade da criminalidade, tendo o sexo masculino maior prevalência. JOHNSON (2006) Avaliar a prevalência, padrões e preditores da dependência de álcool e outras SPA e coocorrência de problemas mentais em ofensoras. Baseado no estudo DUCO, constituído por 2135 ofensores do sexo masculino, 470 ofensoras do sexo feminino e 371 jovens ofensores/as. Conduzido pelo Australian Institute of Criminology em 2003, partindo para tal de amostras constituídas por ofensoras em regime de reclusão na Austrália. Questionário estruturado; Entrevistas presenciais; Escala de 6 itens desenvolvida por Hoffman e colaboradores, em 2003 (identificar a dependências de álcool e outras SPA). inegável a associação entre o consumo de SPA e a criminalidade feminina. Contudo, dúvidas subsistem quanto a serem os problemas mentais precursores de consumos de SPA, ou serem tais consumos A POTENCIAR o desenvolvimento de problemas mentais. KRAUS (1981) Compreensão da relação entre os consumos de SPA por jovens e a delinquência juvenil. 90 jovens acusados de crimes relacionados com as SPA. Os/as participantes deste estudo estariam integrados no Children’s Court em Nova Gales do Sul, Austrália durante os anos de 1979-1980. ________ Existência de uma correlação positiva entre consumo de SPA e delinquência juvenil, não se encontrando diferenças significativas entre sexos. LINDBERG ET AL., (2005) Caracterização dos padrões de sono em ofensoras com ASP condenadas por crimes violentos. Três ofensoras que cometeram homicídio ou tentativa de homicídio. Avaliação psicológica das ofensoras pela Finnish Nacional Board of Medico-legal Affairs, Finlândia. Entrevistas baseadas no DSM-VI; SCID-I; SCID-II; WAIS-R IQ. As ofensoras com ASP apresentam níveis elevados de sono delta. Os traços de psicopatia e consumos parecem associar-se à criminalidade feminina. MILLER, TURNER, & HENDERSON (2009) Avaliar os perfis de personalidade de ofensores/as presos/AS por crimes sexuais. 128 ofensoras sexuais e 136 ofensores sexuais. Os/as ofensores/as em reclusão ou que previamente teriam passado por um período de reclusão no Texas Department of Criminal Justice, Estados Unidos, e integrados num programa de tratamento para ofensores/as sexuais. Personality assessment Inventory ( PAI); Static-99. Identificação de diferenças significativas no que concerne à saúde mental, à personalidade e ao abuso/dependência de SPA entre ofensores/as sexuais. - As ofensoras encontram-se tendencialmente integradas no grupo de psicopatologia moderada a elevada. PECHORRO, POIARES, MARÔCO & VIEIRA (2012) Compreender os/as jovens institucionalizados/as em centros educativos quanto aos traços de personalidade psicopática, perturbações do comportamento, e gravidade e frequência de comportamentos delinquentes. 217 participantes do sexo masculino e 93 do sexo feminino. Os/as jovens estavam inseridos em seis Centros Educativos geridos pela Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), em Portugal. Antisocial Process Screening Device – APSD Escala de Delinquência Auto-reportada Adaptada (Adapted Self-reported Delinquency Scale – ASRDS) Escala de Desejabilidade Social de Marlowe-Crowne na versão curta compósita (Marlowe-Crowne Social Desirability Scale Short Form– MCSDS-SF) Índice de Gravidade de Crimes (Index of Crime Severity – ICS) Questionário Existência de diferenças significativas entre sexos nos traços calosos/não- emocionais, na frequência de condutas ilícitas e na gravidade das mesmas. Contudo, em ambos os sexos existe uma prevalência elevada de comportamento antissocial. sociodemográfico SHECHORY, PERRY, & ADDAD (2011) Avaliar as diferenças entre ofensoras condenadas por crimes relacionados com as SPA, crimes violentos, e fraude, através de variáveis sociodemográficas e dos níveis de autocontrolo e de agressividade. 60 ofensoras em reclusão. Ofensoras que cometeram crimes violentos, crimes relacionados com as SPA, e crimes de fraude, em Israel. Questionário sociodemográfico; Questionário Multidimensional da Personalidade (Multidimensional Personality Questionnaire - MPQ). Nas reclusas que cometeram crimes relacionados direta ou indiretamente com as SPA percebe-se que a vivência de abuso sexual, trauma na infância, consumo de SPA e conflitos familiares apresentam um impacto significativo na sua trajetória criminal. WEIZMANN- HENELIUS, PUTKONEN, NAUKKARINEN, & ERONEN (2008) Caracterização do consumo de álcool e outras SPA em ofensoras que cometeram crimes violentos. 60 ofensoras condenadas por homicídio e outros crimes violentos. As ofensoras em reclusão nos anos de 1999- 2000 na Finlândia. SCID-II (Structured Clinical Interview II); PLC-R (Hare Psychopathy Checklist- Revised). A prevalência de abuso/dependência de SPA, perturbação da personalidade (especialmente, ASP) e historial criminal foi significativamente mais elevado no grupo de ofensoras consumidoras. Resultados Os resumo das características dos estudos da revisão sistemática encontram-se sintetizados na Tabela 1 (Sumário das características dos estudos). Criminalidade Feminina e Consumos de SPA É inegável a existência de uma estreita associação entre o abuso/dependência de SPA e a criminalidade feminina (Johnson, 2006). Foram investigadas as diferenças entre ofensoras condenadas por crimes relacionados com as SPA, crimes violentos e crimes de fraude (Shechory, Perry, & Addad, 2011). Um estudo integrou 60 ofensoras reclusas, das quais 23 pertenciam ao grupo dos crimes violentos (Midade = 35.83; DP = 10.19), e nenhuma destas apresentava abuso e/ou dependência de SPA (Shechory et al., 2011). O segundo grupo incluiu 13 ofensoras condenadas por crimes de fraude (e.g., roubo de identidade e desvio de fundos) (Midade = 46.46; DP = 7.77), sendo que também nenhuma destas tinha consumos de SPA (Shechory et al., 2011). O último grupo contemplava 24 ofensoras condenadas por crimes relacionados com as SPA (Midade = 31.33; DP = 8.90), sendo que todas assumiram uma dependência e/ou abuso de SPA (Shechory et al., 2011). Adicionalmente, percebeu-se a influência do envolvimento com pares delinquentes no desenvolvimento de padrões criminais, sendo que as ofensoras que relataram este envolvimento, afirmaram que a média de idade com que cometeram a sua primeira ofensa foi aos 18.50 (DP = 5.57), sendo a idade da sua primeira reclusão aos 21.67 anos (DP = 7.10) (Shechory et al., 2011). Neste processo foram avaliadas as variáveis de autocontrolo e de agressividade, verificando-se uma correlação negativa; em concreto, quanto mais elevada a agressividade mais baixo o autocontrolo, r =-.46, p = < .001 (Shechory et al., 2011). Nas ofensoras cujos crimes estavam relacionados com as SPA encontrou-se um autocontrolo mais baixo e uma elevada agressividade, em comparação com os outros grupos (M = 12.43, DP = 3.78 vs. M = 6.96, DP = 4.30) (Shechory et al., 2011). De acordo com um dos estudos mais aprofundados sobre a associação do consumo de SPA e a criminalidade feminina, o Drug Use Careers of Offenders (DUCO), no qual foram integradas 470 ofensoras das quais 41% (191) foram identificadas como tendo uma dependência de SPA, 13% como tendo uma dependência de álcool (62), 14% apresentavam dependência de álcool e de outras SPA (66), e por fim, cerca de 32% não apresentavam qualquer tipo de dependência (Johnson, 2006). Quando analisada a relação entre o consumo de álcool e de outras substâncias foi ainda possível verificar que a associação entre o consumo de álcool e de canábis é estatisticamente significativa (r = 1.48) e que a associação entre o álcool e o consumo de heroína é pouco significativa (r = 0.31) (Johnson, 2006). Conclui-se, portanto, que a probabilidade de coocorrer uma dependência de álcool e de outras SPA não é estatisticamente significativa (OR = 0.84, p = .41) (Johnson, 2006). Tal como no estudo anterior percebeu-se uma associação entre o consumo de SPA e a criminalidade feminina, concretamente 31% das ofensoras responsabilizaram o seu consumo pela perpetração do crime, e 35% destas afirmam que os consumos de SPA precederam a sua conduta criminal (Johnson, 2006). Relativamente às variáveis associadas ao consumo de SPA em ofensoras reclusas que cometeram crimes violentos, uma análise da realidade brasileira partindo de uma amostra de 315 ofensoras, das quais 157 cometeram crimes de roubo e 158 crime de homicídio, constatou-se que cerca de metade apresentava dependência e/ou abuso de SPA, bem como um terço destas apresentava índices elevados de impulsividade, o que é coerente com a alegação do estudo anterior que remete para um menor autocontrolo por parte das ofensoras com consumos de SPA (Baltieri, 2014; Johnson, 2006). Na sua maioria as ofensoras que cometeram crime de roubo, alegam tê-lo feito como meio de sustentar a sua adição (Baltieri, 2014). Mais uma vez se refere a estreita ligação entre o consumo de SPA e a criminalidade feminina (Baltieri, 2014). Para se compreender a relação entre dois fenómenos de comportamento desviante, O consumo de SPA por jovens e a delinquência juvenil, foi realizado um estudo com 90 jovens que cometeram crimes relacionados com as SPA, e no qual se verificou não existir diferenças significativas entre os sexos feminino e masculino quanto à SPA e crime perpetrado, χ 2 =3887, df 1, p < .05 (Kraus, 1981). No entanto, compreendeu-se que entre a amostra do sexo feminino existiam diferenças significativas, χ 2 = 68.641, df 15, p < .0001, nomeadamente o consumo de canábis apresentava maior associação ao crime de roubo, o consumo de sedativos revelou maior percentagem nos crimes de abuso moral e o consumo de opiáceos manifestou uma maior associação aos crimes violentos (e.g., assalto e/ou roubo) (Kraus, 1981). Existe uma correlação positiva entre o consumo de SPA e a delinquência juvenil, e consequentemente, concluiu-se que o ato ilícito praticado parece estar mais associado à utilização de uma SPA em concreto, do que ao ato de consumo propriamente dito (Kraus, 1981). Psicopatia feminina e consumo de SPA Com o objetivo de avaliar a associação entre o diagnóstico de Perturbação Antissocial da Personalidade (ASP) e o cometimento de crimes violentos, foram explorados os padrões de sono (Lindberg et al., 2005). Para tal foi realizado um estudo que integrava três ofensoras, não consumidoras no momento da concretização do mesmo, que cometeram crime de tentativa de homicídio ou homicídio (Lindberg et al., 2005). A primeira participante foi diagnosticada através do DSM-IV com dependência de álcool e ASP, sendo identificados indícios de Perturbação da Personalidade Borderline (BPD) (Lindberg et al., 2005). No Inventário de Depressão de Beck (BDI) obteve uma escala de 6/63 (Lindberg et al., 2005). A segunda participante foi diagnosticada com dependência de álcool e ansiolíticos, ASP e BPD (Lindberg et al., 2005). Tendo uma escala de 13/63 no BDI (Lindberg et al., 2005). Por fim a terceira participante do estudo foi diagnosticada com dependência de álcool, ASP e indícios de BPD, sendo que no BDI apresenta uma escala de 8/63 (Lindberg et al., 2005). Quanto os consumos de SPA, as ofensoras parecem apresentar o tipo dois de Cloninger (e.g., caracterizado por um abuso moderado e início precoce dos problemas relacionados com o álcool), sendo este muito associado à ASP, especialmente no sexo feminino (Lindberg et al., 2005). Através da comparação com um grupo de controlo (10 profissionais de saúde do sexo feminino), perceberam-se diferenças entre as ofensoras no que concerne à caracterização dos padrões de sono. Concretamente, as ofensoras apresentaram 24.0% no estágio quatro (S4), enquanto os estudos revelam que para a faixa etária das mesmas (média de 34 anos) os seus níveis de S4 deveriam rondar 7.0% (Lindberg et al., 2005). Os estudos demonstram que no sexo masculino com diagnóstico de ASP com história de crimes violentos é frequente encontrar níveis elevados de sono delta (S4), similar ao encontrado no sexo feminino (Lindberg et al., 2005). O cometimento de crimes violentos perpetrado por mulheres e a sua associação com o consumo de SPA, foi avaliado a partir de uma amostra composta por 60 ofensoras, presas ou hospitalizadas, por ter cometido crimes violentos, das quais 48 (80%) estavam em reclusão e 12 (20%) estavam hospitalizadas (Weizmann- Henelius, Putkonen, Naukkarinen, & Eronen, 2009). Na sua maioria identificaram o consumo de álcool e outras SPA como o fator precipitador do crime, alegando uma influência negativa no seu discernimento e emoções (Weizmann-Henelius et al., 2009). Tal dado é corroborado por estudos anteriores, nos quais as ofensoras indicam os consumos como potenciadores da conduta ilícita. Concretamente, salientaram que o cometimento do crime estaria ligado a uma necessidade de consumo de SPA, de dinheiro e do próprio envolvimento em atividades ilícitas que o mundo das SPA engloba (Weizmann- Henelius et al., 2009). Foi ainda possível compreender que a maioria das ofensoras apresentava uma perturbação da personalidade, sendo que cerca de três quartos da amostra foi diagnosticada com ASP e metade com BPD (Weizmann- Henelius et al., 2009). Adicionalmente, as ofensoras com abuso e/ou dependência de SPA obtiveram índices significativamente elevados na PCL-R (M = 17.8; DP = 8.6) (Weizmann- Henelius et al., 2009). Parece que a existência de traços psicopáticos em simultâneo com o consumo de SPA despoleta uma maior probabilidade de cometimento de crimes violentos particularmente no sexo feminino. Partindo de uma amostra de 128 ofensoras sexuais e de 136 ofensores sexuais e de modo a compreender o perfil de personalidade dos/as mesmos/as, foi avaliado o risco de reincidência criminal, verificando-se um índice de 2 (médio/baixo) no sexo feminino, e um índice de 3 (médio/alto) no sexo masculino (Miller, Turner, & Henderson, 2009). Através da aplicação do PAI percebeu-se que as ofensoras obtiveram índices superiores na maioria dos itens de PAI, à exceção de PIM e do abuso e/ou dependência de SPA (Miller et al., 2009). Sendo que em relação à caracterização da ofensa, os/as ofensores/as não diferiram significativamente, χ 2 (1, N = 309) = 1.19, p = .28 (Miller et al., 2009). Foi possível esclarecer que as ofensoras apresentavam maior probabilidade de pertencer ao grupo de psicopatologia extensa ou moderada (Extensive Psychopathology: b = 2.63, pseudo z = 4.47, p < .001; Moderate Psychopathology: b = 2.91, pseudo z = 6.04, p < .001), bem como de ter índices elevados de consumo de álcool e/ou outras SPA (Extensive Psychopathology: b = 1.47, pseudo z = 2.35, p = .019; Moderate Psychopathology: b = 1.75, pseudo z = 3.49, p < .001) (Miller et al., 2009). O comportamento delinquente na juventude pode estar associado a características de personalidade, como os traços psicopáticos. Foi realizado um estudo com 60 jovens (30 do sexo feminino), com idades compreendidas entre os 12 e os 17 anos (M = 15.2; DP = 1.32) (Barbosa & Reis, 2018). Os critérios de perturbação de comportamento viram-se preenchidos em todos/as os/as participantes, constatando-se: a existência de um padrão de comportamento de violação dos direitos básicos de outras pessoas, das normas sociais consideradas apropriadas para a idade, e a presença de comportamentos antissociais (e.g., agressão a pessoas e/ou animais, destruição de propriedade, falsidade, furto e violações graves das normas) (Barbosa & Reis, 2018). Através do Antisocial Process Screening Device (APSD), constatou-se não existirem na pontuação total diferenças entre os sexos, nomeadamente da escala de narcisismo e de frieza emocional (todos t < 1, p > .169) (Barbosa & Reis, 2018). Já na escala de impulsividade a pontuação total denotou-se maior no sexo masculino t(58) = 1.39, p = .085, d = 0.37 (Barbosa & Reis, 2018). Quanto à escala de disposição delinquente, verificou-se também não existir uma diferença significativa entre os sexos (t < 1) (sexo masculino: M = 2.65; DP = 0.342; sexo feminino: M = 2.71; DP = 0.307) (Barbosa & Reis, 2018). Contudo, a diversidade de condutas delinquentes demonstrou-se maior no sexo masculino (M = 11.2; DP = 4.48), comparativamente com o sexo feminino (M = 7.30; DP = 3.82) (Barbosa & Reis, 2018). Numa amostra de 310 jovens (217 do sexo masculino e 93 do sexo feminino), percebeu-se que os participantes do sexo masculino iniciavam o seu envolvimento em atividades criminais mais precocemente do que o sexo feminino em análise, t(232,44) = 5.59; p ≤ 0,001. De igual modo, contatou-se que são os indivíduos do sexo masculino que exibiam mais cedo problemas relacionados com o incumprimento da lei, t(224,15) = 2.84; p ≤ 0,001 (Pechorro, Poiares, Marôco, & Vieira, 2012). No que concerne aos traços psicopáticos avaliados pelo APSD-SR não foram encontradas diferenças significativas entre os sexos, sendo que o diagnóstico de perturbação do comportamento obteve um diagnóstico frequente tanto no sexo masculino (92.6%) como feminino (84.9%); tais resultados são concordantes com os resultados do estudo de Barbosa e Reis (2018). Discussão Esta revisão sistemática pretendia dar resposta à seguinte questão de investigação: qual o papel dos traços psicopáticos e do consumo de substâncias psicoativas no envolvimento em comportamentos criminais por parte de mulheres? Tanto quanto é do nosso conhecimento e a partir da pesquisa em bases de dados, esta é a primeira revisão sistemática alusiva a este tema. A revisão seguiu as orientações do PRISMA, estabelecendo rigorosos critérios de inclusão e de exclusão e os resumos de todos os artigos resultantes da expressão de pesquisa foram analisados por dois revisores independentes. As variáveis nas quais se foca a presente revisão apresentam pouca investigação científica, sendo ainda mais escasso a sua influência e particularidade no sexo feminino. É inegável a associação entre o consumo de substâncias psicoativas e a criminalidade feminina, existindo adicionalmente evidências de que os traços de psicopatia nas mulheres também se associam aos fenómenos acima elencados. Nas ofensoras, tende a existir um diagnóstico de dependência de álcool e/ou de outras substâncias psicoativas, verificando-se que o seu envolvimento em condutas criminais é motivado pelos consumos de substâncias (Johnson, 2006; Shechory et al., 2011), sendo o comportamento aditivo precedente aos atos ilícitos e existindo a perceção de que as substâncias psicoativas afetam de modo negativo o discernimento e emoções das ofensoras (Johnson, 2006; Weizmann-Henelius et al., 2008). A criminalidade feminina relaciona-se sobretudo com os crimes relacionados direta e indiretamente com as substâncias psicoativas, estando fortemente fundamentada a sua inserção no tráfico de substâncias ilícitas e nos crimes aquisitivos (Baltieri, 2014; Johnson, 2006). Os crimes aquisitivos manifestam-se em crimes de roubo e/ou furto sendo associados a um meio de sustentar a sua adição, uma necessidade de obtenção de dinheiro e consequentemente uma repercussão do mercado ilícito das substâncias psicoativas (Baltieri, 2014; Weizmann-Henelius et al., 2008). Estas tendem ainda a exibir um padrão comportamental marcado pela impulsividade e agressividade, no qual consequentemente se revê um baixo autocontrolo (Baltieri, 2014; Shechory et al., 2011). As evidências indicam que os sinais de alerta se manifestam desde idades precoces, tais como a pertença a grupos de pares delinquentes, além de operarem como um forte preditor tanto dos consumos de substâncias psicoativas como do cometimento de condutas ilícitas (Barbosa & Reis, 2018; Kraus, 1981; Shechory et al., 2011). Nomeadamente, constata-se que este envolvimento associa-se a condutas antissociais como a violação dos direitos básicos, transgressão de normas, agressão a pessoas e/ou animais, entre outras, sendo notório que tais padrões comportamentais tendem a traduzir-se numa idade mais precoce de envolvimento no seu primeiro ato ilícito e também numa idade mais precoce da sua primeira reclusão (Barbosa & Reis, 2018; Shechory et al., 2011). Contudo, esta associação não poderá ser analisada como completamente linear, uma vez que alguns estudos salientam a possibilidade de a criminalidade estar associada aos consumos de substâncias psicoativas mais concretamente devido à substância em específico, bem como as suas características de composição e consequentes efeitos, do que propriamente do comportamento aditivo em si (Kraus, 1981), isto é, o comportamento aditivo per si poderá não ser problemático ou gerar necessariamente condutas ilícitas, estes fenómenos segundo alguns estudos parecem estar associados à substância consumida e ao seu efeito psicoativo no indivíduo. Quanto aos traços psicopáticos especificamente no sexo feminino e a sua associação ao consumo de substâncias psicoativas e criminalidade, este fenómeno encontra-se ainda pouco investigado. Contudo é possível compreender pelos estudos que existe alguma associação entre os fenómenos supra descritos. Em concreto, as ofensoras que cometeram crimes violentos apresentam em comum um frequente diagnóstico de Perturbação de Personalidade Borderline e de Perturbação Antissocial da Personalidade e sabe-se também que a sua manifestação comportamental de traços psicopáticos parece ser interpretada como correspondendo a tais perturbações, talvez pela externalização diferenciada do sexo masculino (Carabellese et al., 2020; Lindberg et al., 2005). Quando devidamente avaliados os traços psicopáticos percebe-se que a sua identificação é similar em ambos os sexos, embora no sexo masculino se verifique em idades mais jovens uma maior predisposição à impulsividade e à transgressão das normas (Barbosa & Reis, 2018; Pechorro et al., 2012). Nas ofensoras com traços psicopáticos verifica-se, adicionalmente, índices de depressão e um risco acrescido de consumos de álcool e/ou outras substâncias psicoativas, geralmente associados ao cometimento de crimes violentos (e.g., homicídio e roubo) (Lindberg et al., 2005; Miller et al., 2009). De facto, as evidências das temáticas em estudo apresentam ainda pouca expressão científica e, apesar do crescente interesse em desenvolver conteúdos científicos, não é possível concluir com exatidão a manifestações de tais variáveis no sexo feminino. Contudo, é inegável que no sexo feminino, os consumos de substâncias psicoativas e os traços de psicopatia se manifestam quando são estudadas as ofensoras. Conclusão A presente revisão sistemática foca a influência dos traços psicopáticos e do consumo de substâncias psicoativas no envolvimento em comportamentos criminais por mulheres, o que se tornou um desafio face à particular complexidade dos fenómenos. Primeiramente, referir que estes fenómenos diferem entre os sexos feminino e masculino, principalmente pela motivação e repercussões (sociais, psicológicas e/ou físicas). Em concreto, as ofensoras tendem a iniciar os consumos de substâncias psicoativas, bem como o cometimento de atos ilícitos, por motivos completamente distintos do sexo masculino. Percebe-se, também, que o peso da trajetória de vida das ofensoras encontra estreita ligação tanto aos comportamentos aditivos como criminais. É comum identificar-se vidas marcadas pelo abuso na infância e que em muitos casos se estende para a vida adulta, ausência de suporte social, desemprego e seio familiar com problemas relacionados com o consumo de substâncias psicoativas. Encontra-se, assim, um perfil altamente vulnerável e particularmente exposto ao risco, sendo o consumo de substâncias psicoativas utilizado pelas ofensoras como uma forma de coping para gerir as memórias adversas e emoções negativas. Nas ofensoras consumidoras de substâncias psicoativas os efeitos consequentes da intoxicação pela substância parecem alterar o discernimento das mesmas, razão pela qual tendem a preceder a conduta ilícita. Tendencialmente, estas perpetram crimes de cariz violento sob o efeito de substâncias psicoativas, o que consolida a evidência de que no sexo feminino a criminalidade está profundamente ligada aos consumos. Quanto aos traços psicopáticos e a sua consequente associação às variáveis descritas, compreende-se que a sua análise e identificação seja dificultada pela externalização comportamental das ofensoras. Estas manifestam traços de impulsividade e conduta antissocial de modo diferenciado daquilo que ocorre no sexo masculino, em particular com menor agressividade e maior manipulação de outrem em benefício próprio, levando diversas vezes a um falso diagnóstico de Perturbação Antissocial da Personalidade, Perturbação Borderline ou Perturbação Histriónica. Em suma, constata-se que a criminalidade feminina se associa aos consumos de substâncias psicoativas, sendo que quando bem analisado os traços psicopáticos parecem frequentemente identificados nas ofensoras do sexo feminino. Contudo são temáticas que necessitam de uma maior dedicação por parte da comunidade científica. É possível elencar algumas limitações na presente revisão, como o facto de os estudos com as ofensoras do sexo feminino com traços psicopáticos apresentarem amostras reduzidas, o que não permite uma generalização para uma população mais vasta, assim como o encobrimento do diagnóstico de psicopatia no sexo feminino, que parece frequentemente identificado como uma outra psicopatologia, o que poderá proporcionar um risco de viés dos verdadeiros resultados e propósitos dos estudos. Outra limitação prende-se com a análise de qualidade dos artigos. Não foi efetuada porque, tratando-se de tão poucos artigos incluídos na presente revisão sistemática, esta ficaria inviabilizada se dois ou três artigos pontuassem abaixo de seis (o ponto de corte foi estabelecido com base na maioria das grelhas de avaliação da qualidade dos artigos em que a pontuação máxima é 10). Futuramente, seria importante realizar mais investigações acerca da influência dos traços psicopáticos e do consumo de substâncias psicoativas na criminalidade feminina, uma vez que poucos são os estudos que se concentram na avaliação destas variáveis. Sugere-se, ainda, uma análise cuidada do diagnóstico de psicopatia no sexo feminino, bem como a composição de amostras que permitam a generalização dos resultados, assim como a realização de revisões sistemáticas, com ou sem metanálise, com avaliação da qualidade dos artigos. O presente estudo apresenta-se como uma base inovadora sobre uma temática de grande interesse que poderá ser o ponto de partida de futuras investigações. Referências Almeida, F., & Moreira, D. (2020). Male and female psychopaths: Affective, interpersonal, and behavioral differences. Psiquiatria, Psicologia & Justiça, 17, 75-111. Baltieri, D. (2013). Predictors of drug use in prison among women convicted of violent crimes. Criminal Behaviour and Mental Health, 24(2), 113-128. http://dx.doi.org/10.1002/cbm.1883 Barbosa, F., & Reis, A. (2018). Tendências de personalidade psicopática e comportamento antissocial em jovens delinquentes do sexo feminino e masculino. Psychologica, 39-52. https://doi.org/10.14195/1647-8606_60-1_3 Carabellese, F., Felthous, A., La Tegola, D., Rossetto, I., Franconi, F., Lucchini, G., … Catanesi, R. (2020). Female psychopathy: A descriptive national study of socially dangerous female NGRI offenders. 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